CD quebrado

8 nov

Eu queria uma metáfora que pudesse minimamente explicar o que eu senti naquela noite. Aquela dor horrível no peito enquanto por dentro eu sangrava. Não era a sensação de um vidro quebrado, apesar dessa imagem ser bastante forte e mais poética. Mas não. Era algo como um CD partido ao meio. Sem estilhaços, apenas uma fenda, um racho tão profundo que cortava um ser frágil de alto a baixo. Sabe quando você faz força para quebrar um CD com as mãos? PÁ! Era isso. Assim, rápido, porém não menos indolor nem menos irreparável do que uma placa vítrea que se esfacelasse dentro de mim.

cd quebrado

Cada dor que a gente sente é diferente uma da outra, acho que nada no mundo vai ser parecido com aquilo. Foi um baque seco. PÁ! Apenas quebrou, não teve eco, não teve cacos ressoando pelo assoalho do coração. Depois veio o silêncio lá dentro, entrecortado apenas pelos meus soluços e pela tentativa desesperada de respirar. O cérebro parecia nem funcionar. E quando acordou só tentava entender por que você tinha feito o que fez.

Eu vejo agora o seu cinismo. Eu não percebi nada, nenhum comportamento diferente do usual. Como se admiraram meus amigos que estavam junto conosco naquela noite, a gente táva de casalzinho, juntinhos, alguns minutos antes. Você ainda me trouxe para casa e parou o carro no mesmo lugar de sempre. Eu me preparava para sair do carro e subir com você, como sempre fazíamos. Mas só entrei no meu apartamento com aquela dor excruciante, tudo que eu tinha. “Eu preciso falar com você”. Já te olhei assustada, e você disse que minha opinião sobre você iria do céu ao inferno em questão de segundos. Mas não foi raiva o que eu senti quando você me disse que sua ex-namorada viria para a cidade, queria vê-lo e você aceitara – porque afinal todo o sentimento que você achava que havia morrido de repente ressurgira. Eu me senti inferior, trocada, frágil, mas não senti raiva.

Você não foi sincero comigo nessa história. Talvez tenha ficado comigo para esquecer a outra, quem sabe. Ainda desconfio da veracidade do que você dizia sentir por mim e se você não estava mesmo pensando em outra pessoa quando estava do meu lado. Se ao menos tivesse me dado sinais de que um desastre poderia acontecer, ou demonstrado ser um cafajeste como tantos por aí, eu desconfiaria, saberia que tinha algo errado, ficaria alerta. Apenas no fim você foi sincero (e sinceridade quando não é dita da maneira certa machuca, entenda), e eu abri mão porque não via outra alternativa. Não queria rastejar por quem já havia deixado claro que não me queria. Mesmo de cabeça baixa, eu tinha de seguir em frente. Saí do carro e não olhei para trás.

Passados alguns dias, nos quais eu tratei de me afastar de você e cortar qualquer tipo de contato, fiquei imaginando se você viesse atrás de mim novamente. Ah, a esperança… por que raios a gente pensa nessas coisas? Eu não sei se conseguiria confiar em você novamente, pois dali um mês se desse a louca nela de vir te ver outra vez, você iria me largar de novo para ficar com ela. Eu não poderia ficar à mercê dessa garota. Nem conviver com a dúvida de que talvez você estivesse me enganando.  Eu acharia bem mais fácil que não viesse, como de fato aconteceu.

Ainda hoje não consigo entender os seus motivos para abandonar algo que, segundo você mesmo, estava sendo tão legal, tão gostoso. Não sei se foi só uma desculpa porque não sabia como acabar tudo. Talvez um dia eu venha a entender se passar por situação semelhante (francamente espero que algo assim nunca aconteça). E mesmo depois de tanto tempo eu não consigo sentir raiva. Eu tenho é medo. Medo de te encontrar nos lugares que frequento, nos lugares onde passo e sei que você pode estar, medo de que outra pessoa me machuque da forma como você fez. Que eu não possa mais voltar a tocar uma canção, ou não consiga ouvir outra música tão cedo.

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2 Respostas to “CD quebrado”

  1. marielfernandes 9 de novembro de 2013 às 21:16 #

    Mas acredite: a música vai tocar outra vez. E outra. E outra. Até que chegue o teu momento de cantar. Ele sempre chega

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