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Abusivo clássico

9 jan

A gente nunca percebe quando está presa num relacionamento abusivo. É clichê dizer isso, eu sei. Mas os clichês saem justamente da repetição de padrões. Logo eu, tão feminista, tão esclarecida, tão lúcida… coloquei a culpa na minha autoestima – que você conseguia deixar lá no chão constantemente com suas atitudes que não coincidiam o que você falava e me deixavam insegura – coloquei a culpa em mim mesma e no meu ciclo de relacionamentos fracassados… e me perdi na linha tênue entre a autossabotagem e a hora de cair fora. Tudo era névoa.

Eu sabia que tudo aquilo era muito tóxico. Quase radioativo. Eu passava mais tempo chorando e tendo crises de ansiedade, algo realmente não poderia estar bem. E eu preferi achar que o problema era eu, a admitir que o problema era você e a forma como você conduzia nosso relacionamento, a forma como nunca me escutava e sempre tinha milhares de argumentos supostamente racionais para derrubar qualquer coisa que eu dizia, porque eu era sensível.

Mansplaining, gaslighting… e todos aqueles nomes estranhos em inglês que só servem pra definir atitudes babacas dos homens pra reduzir as mulheres… todos eles estavam ali. Logo você, tão desconstruído, tão descolado (até lavava a louça!), falava sobre feminismo, levantava bandeiras do feminismo, bradava contra o Amor Romântico… mas só pra você, quando lhe era conveniente. Eu não podia. Quando me empoderava, lá vinha você com seus argumentos para me fazer sentir culpada, mas a recíproca nunca era verdadeira. Esquerdomacho, outro clichê.

Em algum momento aquilo foi amor, mas depois virou dependência emocional. E se aquele era seu jeito de amar, eu sinto muito por ter que dizer isto… mas espero que mude, porque não é justo receber amor e machucar as pessoas sucessivamente. É egoísta, doentio. Eu saí esgotada, destruída, perdi minhas energias, meu brilho. E não devo ter sido a única que saiu desse jeito das relações com você. Desconfio até que talvez não seja a última.

Fico triste por tudo isso ter acontecido daquela forma, por não ter percebido antes, mas não é mais algo que me afete de fato. Já foi, já juntei os caquinhos, colei-os de volta, não sem ajuda, é claro. E agora me reencontrei e estou em paz comigo, já consigo falar disso tudo abertamente.

Agora entendo um pouco quando a Clementine quis apagar o Joel e tudo que vivera com ele, naquele filme em que eu sempre choro litros, Brilho eterno de uma mente sem lembrança. Apesar de nunca achar que vale a pena apagar tudo, pois olha só quanta coisa teria sido perdida, quanto aprendizado, crescimento, amadurecimento. Mesmo assim você é uma das raras pessoas que eu quis excluir da minha vida. E olha que eu demorei pra fazer isso, mesmo com umas dez pessoas me dizendo quase diariamente “bloqueia!”. Não quero que você saiba de mim, o que faço, aonde vou, com quem… não tem sentido.

Você tinha razão em um ponto, qualquer coisa que viesse depois disso seria fácil. Porque é passando por essas situações horríveis que a gente aprende a valorizar quem cuida da gente de verdade.

 

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