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Desencanto

6 jul

Eu ainda me lembro o jeito com que você me pedia, assim como não quisesse nada, para que eu dormisse na sua casa porque ao meu lado você dormia feito um bebê. Com alguma fórmula mágica, eu conseguia jogar sua insônia para bem longe. Me dei conta de que havia algo errado com a gente quando você voltou a passar noites em claro, mesmo comigo ali, deitada.

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Foto: Paula Paricio

Eu ainda me lembro de como, ao acordarmos com o sol batendo na sua janela, você falava no meu ouvido “desgraçada” quando estávamos de conchinha e eu empinava minha bunda na sua região pélvica. Sexo matinal era uma delícia – e também o melhor despertador -, e não nos importávamos de chegar atrasados em nossos trabalhos. O problema estava em quando deixamos de fazer isso.

Eu ainda me lembro de quando a gente cozinhava juntos. Ninguém ligava para as panelas sujas, a cebola queimada ou a fumaça de alguma fritura invadindo o apartamento. A gente sempre se divertia e ria juntos. Mas as horas preparando o jantar foram substituídas por lanches rápidos e improvisados.

Aos poucos o carinho foi morrendo, fazer amor tornou-se só sexo, e o próprio sexo entrou no modo automático. Antes a gente queria e dava um jeito, depois passamos a dar desculpas. O que antes era uma parceria em ir juntos a todos os lugares virou ausência e falta de convite um ao outro. As conversas diárias e alegres se transformaram em falta de diálogo, e a seguir em silêncio. Então veio a primeira briga, e com ela o desrespeito. Acabou.

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente”

(Soneto de Separação – Vinicius de Moraes)

 

 

A Lei do Desapego

6 fev

Ultimamente tenho notado o quanto as pessoas pregam o Desapego. Batem no peito e dizem com orgulho que não se apaixonam, não criam expectativas, não estão nem aí se a pessoa com quem se relacionam ficar com outra, conseguem se relacionar com duas ou três pessoas ao mesmo tempo, o tal do poliamor também tem se tornado mais frequente, e ouço diversas vezes por dia o termo “amor livre” … tenho amigos(as) que me dizem o tempo todo para não me apegar, para ser mais desencanada, como se esse comportamento fosse regra social e eu não pudesse fazer diferente, nem pudesse querer uma relação monogâmica, como se qualquer outra forma de amor não fosse livre.

Já tentei, e não consegui nem consigo ter relacionamentos abertos e praticar o desapego. Está na minha essência ser apegada – mas não possessiva, acho que existe um abismo de diferença entre essas duas coisas. Às vezes me sinto uma incompetente por não conseguir ser desapegada, preciso me respeitar mais e me aceitar mais. E seria legal também que as pessoas parassem de emitir suas opiniões como se fossem uma verdade universal. Em tempos de comportamento massificado, qual o problema em ser diferente? Em sentir diferente? Qual o problema em não querer objetificar as pessoas com quem me relaciono ou em querer estar com elas porque gosto delas e não somente porque me satisfazem?

Imagem Tenho percebido também que as pessoas relacionam apego à satisfação do próprio ego, egoísmo. Acho que os significados de algumas palavrinhas aqui andaram sendo distorcidas. Segundo o dicionário Houaiss, egoísmo é apego excessivo, ao passo que egocêntrico é alguém que não se importa com os interesses alheios. Apego significa ter estima, afeição por algo/alguém. Enquanto desapego é desinteresse, desamor, e desapegar é não ter envolvimento. Acredito que esses indivíduos ditos desapegados sejam os verdadeiros egocêntricos, porque não estão a fim de se doar ao outro, enquanto o apegado está.

Se antes eu sentia que havia uma pressão para namorarmos, casarmos e termos filhos – normalmente vinda de pessoas mais velhas ou de círculos sociais mais conservadores – , hoje a pressão é para sermos desapegados. Eu, particularmente, não me encaixo em nenhuma das duas categorias, estou perdida num meio-termo que ninguém parece entender ou respeitar. Um ex meu até disse que só porque sou feminista, eu deveria ser mais moderninha nessa questão de relacionamentos. Honestamente acho que uma coisa não implica a outra, mas às vezes penso que estou fora do meu tempo. Ou todos nós estamos, já que esta parece ser uma época de transição de valores, princípios, sensações. É melhor ter sentimentos ou não tê-los? É melhor se doar, se entregar ou ser uma pessoa fria? Cada um sabe o que é bom pra si mesmo. Eu prefiro sentir.

LÍNGUA E LITERATURA

PROFESSORA MARIA LÚCIA MARANGON

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