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Excesso de bagagem

2 mar

Estava no aeroporto da vida, me achando pronta para alçar um novo voo quando reparei no caos que consiste meu carrinho de malas. Ele é atulhado com milhões de malinhas, jogadas umas por cima das outras. Para carregá-lo eu preciso fazer malabarismos e evitar que nenhuma delas caia no caminho. Custava eu colocar tudo numa mala gigante, organizada, ao invés de dificultar minha viagem? Seria bem melhor, mas a minha vida amorosa não é assim.

Muitas pessoas passam por essa travessia com uma única mala, grande, por vezes pesada, outras nem tanto. Algumas se cansam de carregar essa mesma mala a vida inteira e acoplam mais alguma, que pode ser uma valise ou apenas uma mala um pouco menor, com rodinhas para ficar mais fácil de carregar. Outras pessoas carregam um mochilão, e tantas outras apenas uma mala de mão. Outras ainda só utilizam o extensor para caber mais coisas dentro.

O conteúdo dessas malas pode ser leve como plumas e lenços de seda, mas também pode ser pesado como concreto ou chumbo. Cada um sabe o que é capaz de carregar, mesmo que dê sobrepeso e a gente tenha que pagar por ele.

malas

Preciso de um desses ;P

O meu carrinho, percebi, dá excesso sempre. E a cada nova viagem fica mais difícil despachar todas as minhas malinhas, torcendo para que nenhuma seja extraviada no caminho. Pior ainda é esperar todas elas passarem na esteira quando a viagem chega ao fim. Quando acho que não falta mais nada, surge mais uma bolsa ali na esteira.

Sempre aterrisso com uma nova mala depois da viagem, e daí tenho que organizar tudo novamente para tentar encaixá-la nessa pilha, sem esquecer de nenhuma. Algumas já têm um lugar fixo no carrinho, fazendo com que seja mais fácil encaixar o restante. Prefiro deixar as mais pesadas embaixo, escondidas, pra não desmoronar tudo se eu as colocar em cima da pilha.

Algumas ficam tão abarrotadas que o zíper da bolsa estoura e tudo o que tinha dentro vem à tona. Conclusão, tenho que pegar outra sacola que comporte aquele conteúdo pra que não me incomode mais.

O que eu queria mesmo era ter uma mala grande onde pudesse ser colocado maior número possível de coisas, e poder deixar por um tempo todas essas pequenas malinhas no guarda-volumes de algum aeroporto, sem me preocupar com elas, pois estariam em segurança. Haja armário pra tanta coisa! Mas enquanto ela não chega, vou me virando pelos aeroportos, pensando na melhor forma de organizar esse caos, sem que ele me atrapalhe quando eu quiser carregar uma nova bagagem de mão.

Desencanto

6 jul

Eu ainda me lembro o jeito com que você me pedia, assim como não quisesse nada, para que eu dormisse na sua casa porque ao meu lado você dormia feito um bebê. Com alguma fórmula mágica, eu conseguia jogar sua insônia para bem longe. Me dei conta de que havia algo errado com a gente quando você voltou a passar noites em claro, mesmo comigo ali, deitada.

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Foto: Paula Paricio

Eu ainda me lembro de como, ao acordarmos com o sol batendo na sua janela, você falava no meu ouvido “desgraçada” quando estávamos de conchinha e eu empinava minha bunda na sua região pélvica. Sexo matinal era uma delícia – e também o melhor despertador -, e não nos importávamos de chegar atrasados em nossos trabalhos. O problema estava em quando deixamos de fazer isso.

Eu ainda me lembro de quando a gente cozinhava juntos. Ninguém ligava para as panelas sujas, a cebola queimada ou a fumaça de alguma fritura invadindo o apartamento. A gente sempre se divertia e ria juntos. Mas as horas preparando o jantar foram substituídas por lanches rápidos e improvisados.

Aos poucos o carinho foi morrendo, fazer amor tornou-se só sexo, e o próprio sexo entrou no modo automático. Antes a gente queria e dava um jeito, depois passamos a dar desculpas. O que antes era uma parceria em ir juntos a todos os lugares virou ausência e falta de convite um ao outro. As conversas diárias e alegres se transformaram em falta de diálogo, e a seguir em silêncio. Então veio a primeira briga, e com ela o desrespeito. Acabou.

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente”

(Soneto de Separação – Vinicius de Moraes)

 

 

Aparição

2 maio

Qual não foi o meu susto ao dar de cara com você quando fiz a curva num corredor do supermercado? Três anos! A gente vive na mesma cidade, possivelmente frequenta as mesmas festas, as mesmas casas noturnas e bares, e eu nunca tive o prazer (ou desprazer) de encontrar você  em nenhum desses lugares. Lembro que você simplesmente sumiu, assim, sem deixar nenhum rastro.

desencontro

Nem chegou a ser um relacionamento sério, você me descartou como quem se desfaz de um brinquedo depois de enjoar da brincadeira. Infelizmente me marcou demais, porque eu estava numa fase péssima. Tinha acabado de sair de mais um rolo da minha vida, e ainda acreditava que “a dor do amor é com outro amor que a gente cura”. Ao invés de me recolher, não: me joguei nos seus braços achando que você podia consertar tudo, e você acabou jogando uma pá de cal pra selar a minha vida amorosa desgraçada. Qual era o meu problema?

Eis que num domingo à tarde, de cestinha na mão fazendo compras, passei por você e fiquei intrigada, será que era? “Eu acho que vi uma pessoa, vamos voltar pro outro corredor, preciso ter certeza”, comentei com uma amiga que estava me fazendo companhia. Ela achou um pouco estranho e quis saber quem poderia ser, quando contei, até ela ficou surpresa.

Fui atrás de você e de sua namorada, parei a poucos metros olhando uma prateleira de chocolates. Era mesmo. Você olhou pra mim de relance, com cara de paisagem. Falei com minha amiga, demos um migué, saímos daquele corredor. O que me indignava era não ter te encontrado antes, uns dois anos atrás, em outras situações mais propícias a esses encontros – e, claro, como qualquer garota que foi chutada, poder mostrar o que você estava perdendo. Numa paráfrase barata dos Beatles, “but now these days are gone, I’m MORE selfed assure / Now I find, I’ve changed my mind and opened up the doors”, ou pelo menos eu acho.

Ainda tenho dúvida se você não me reconheceu ou disfarçou muito bem. Confesso que prefiro que você não tenha me reconhecido mesmo, seria mais um sinal de que eu realmente mudei e não sou mais a menininha daquele tempo. Você, no entanto, não mudou quase nada, apesar de ser agora um completo estranho. Seu fantasma trouxe algumas lembranças apenas, não foi mais capaz de mexer em alguma ferida. Acredito que ela já tenha cicatrizado.

LÍNGUA E LITERATURA

PROFESSORA MARIA LÚCIA MARANGON

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